Igarapé-Miri, a Capital Mundial do Açaí


Cestos com açaí no porto de Igarapé-Miri

Desde os anos da década de 1980, Igarapé-Miri atravessou sérias mudanças na sua economia com o fim do ciclo da cana-de-açúcar. Dos 54 engenhos que produziam açúcar e cachaça em 1975, apenas nove restaram em 1983, e na década de 1990 praticamente desapareceram, ex-proprietários de engenhos mudaram-se para Belém, onde abriram grandes supermercados, como o Líder e o Nazaré; e muitos trabalhadores rurais ficaram desempregados.

Isolados, sem trabalho e sem terra, estes mudaram-se para a cidade de Igarapé-Miri, onde formaram bairros na periferia, como o da Cidade Nova, o bairro mais populoso e com pouca infra-estrutura. A pobreza veio como resultado desse êxodo rural. Para contê-lo, um grupo de lideranças aceitou o desafio de tentar resgatar os trabalhadores à zona rural, convencendo-os de que ali a vida poderia ser melhor.

Na década de 1980, a pesca em igarapé-Miri, foi fortemente abalada pela construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí (que a partir de 1983 teria levado à redução de muitas espécies, principalmente do mapará, e sua vegetação ficou comprometida com a atuação de serrarias (instaladas após a abertura da rodovia PA 150) e de indústrias de palmito, responsáveis pela redução do mais tradicional alimento daquela população local, o açaí. Assim, os açaizais mirienses sofreram um forte impacto com a exploração do palmito de açaí. Essas fábricas começaram a chegar do sudeste para as regiões de várzea no Pará ainda na década iniciada em 1970, a partir do esgotamento das fontes do palmito jussara na Mata Atlântica. As mesmas vieram para a região Baixo-Tocantins atrás do palmito do açaí. Antes abundantes nas regiões de várzea da Amazônia, os açaizeiros começaram a sofrer impacto com o corte indiscriminado de suas palmeiras em idade produtiva. Essa ação predatória afetou o estoque de frutos para a dieta alimentar da população, baseada na farinha de mandioca, peixe e polpa de açaí, a qual é produzida com certa quantidade do fruto amassado e misturado com água. Assim, os açaizais mirienses sofreram um forte impacto com a exploração do palmito de açaí, iniciou-se então naquela o processo de organização político-econômica de trabalhadores rurais, especialmente daqueles que estavam desempregados.

Centro de Formação Mutirão, Rio Meruú, Igarapé-Miri

Uma das alternativas foi o chamado Projeto Mutirão, no início da década de 1990. Esta iniciativa contou com a força de um reduzido grupo de mulheres que, após lutarem pelo trabalho de seus maridos, passaram a lutar pela igualdade de seus direitos, elas entraram nesse processo como meras coadjuvantes, estimulando e apoiando seus companheiros a enfrentar o novo desafio: retomar as atividades abandonadas com o êxodo rural provocado pelo fim desse mesmo ciclo.

E foi assim que nasceu a AMUT, cujo nome também, o objetivo da associação era ousado: desenvolver a economia do município a partir da produção rural, investir na formação política e ambiental de seus sócios, fortalecer sua organização e incentivar o trabalho em harmonia com a natureza. Assim, uma nova relação com a floresta nasce como modo de superar a crise e a floresta passa a ser mais do que um espaço ambiental, tornando-se o território daqueles trabalhadores rurais. A importância dessa relação é, hoje, cultivada por muitos associados. A AMUT foi uma das pioneiras do município. Fundada em maio de 1990, contou com o apoio de comunidades eclesiais de base, como a italiana Manitese que ajudava, inclusive, com recursos financeiros. Organizados, seus associados ocuparam uma área devoluta de 200 hectares às margens do igarapé Tracuateua, sem a menor infra-estrutura. Em seguida, ocuparam mais 145 hectares de terras, às margens do rio Meruú-Açu, uma área conhecida como Ponta Negra. Foi neste local que os trabalhadores construíram a sede da associação e que a participação das mulheres fica mais evidente. A construção da sede em si foi um grande evento. Esse grupo trabalhava de dia na cidade e à noite seguia para Ponta Negra. A viagem era feita em pequenas canoas e durava cerca de uma hora. As mulheres, a maioria esposas dos associados, encarregavam-se de fazer a comida e ajudavam a carregar tijolos, pau, pedra, barro, terra, madeira e tudo o que a força física permitisse. Toda essa história é lembrada com emoção por Carmen Foro, uma das sócias-fundadoras do Mutirão e atual vice-presidente nacional CUT.

E foi assim que, com o Mutirão, que os ribeirinhos reaprenderam a produzir o açaí, intensificando os cuidados de higiene e passam a usar até máscaras, luvas e touca no processo de colheita e debulha do fruto. Os procedimentos novos no processo de produção de açaí mudaram a rotina de trabalho e o comportamento desses ribeirinhos. Ao contrário do que aprenderam com os avós, sabem que hoje os acessórios de higiene são obrigatórios em praticamente todas as etapas de produção, inclusive para o consumo próprio. O processo de exportação de açaí para os Estados Unidos da América começou ainda em 2003. A exportação é resultante da valorização dos frutos de açaí no mercado nacional e do avanço do trabalho e da organização dos produtores da região do baixo Tocantins. Isso ampliou as oportunidades de negócios para a produção familiar e abriu portas no mercado externo.

Passou-se já 15 anos da fundação do Mutirão. De lá pra cá, muitas histórias vêm sendo construídas e muitas lutas, travadas. As vitórias também são somadas. O ponto de partida foi a crise econômica que abalou o município na década de 1980, momento de transformação crucial para a compreensão da realidade social daquela região. Eram centenas de trabalhadores rurais que viviam dependentes de patrões e que, naquele momento, viram-se desempregados, desolados, sem perspectivas de futuro e obrigados a mudarem-se para a cidade. É interessante como foi necessário adentrarem ao meio urbano para encontrar forças para retomar a vida rural.

Hoje igarapé-Miri é o maior produtor e exportador de açaí do mundo, sendo que essa conquista teve início com o Projeto Mutirão, quando o açaí ainda era desvalorizado.